Vontade de partir

Julho 20, 2008

 

para outro lugar

   

Boa-noite a todos

Julho 20, 2008

«Quando o comboio partir não digas adeus porque ficaste no cais. Foi apenas o teu passado que se foi embora, na terceira ou na quarta carruagem de segunda classe, precisamente a que acaba de desaparecer no túnel. Foi apenas o teu passado que se foi embora: o teu presente ficou. O teu presente, isto é: ir ao bar da estação, sem ter tirado o lenço da algibeira, sem saudade, sem remorso, sem pena, e olhar pelo vidro da porta o cais vazio, com o relógio a marcar uma hora que já não é a tua. Não penses na bagagem que ninguém recolherá na gare de uma cidade onde não irás nunca: o que arrumaste lá dentro deixou de pertencer-te. Pertence-te esta tarde de Lisboa, pode ser que algum pombo, alguma estátua, o rio. Mete a mão no bolso e deita fora a chave da tua casa, o bilhete de identidade, a agenda dos telefones, o retrato dos teus filhos, a factura da electricidade em atraso que devias pagar: o teu passado foi-se embora, a tua mulher foi-se embora, o teu emprego foi-se embora, deixaste de existir na véspera, deixaste de pensar em amanhã. No bar da estação assistes ao próximo comboio, é às nove. Esperam-te para jantar? Colocaram o teu prato, o teu copo, os teus talheres na mesa? O teu remédio para os olhos, aquelas gotas que picam? Não te inquietes com o jantar nem com o remédio: não é a ti que esperam. Não te chamas nada, foste-te embora, as gaivotas e as pessoas não te dão atenção, nenhum mendigo, nenhum cachorro te fareja. Se te cumprimentarem não respondas, se te perguntarem seja o que for diz
– Não sei
ou inventa uma língua para dizer
– Não sei
por exemplo
– Vlkab
ou
– Tjmp
e mostra-lhes o rio com o indicador. Depois começa a caminhar na direcção da água, onde já não te seja possível escutar os comboios, nem os automóveis, nem as pessoas para trás de ti, demasiado longe agora, nem os morcegos a perseguirem-te nas lâmpadas dos candeeiros. É a hora em que passava o último autocarro na rua onde moraste, na rua onde o que tinha o teu nome morou. Número quarenta, primeiro andar direito, uma arca de cânfora à entrada com um espelho que pertenceu à tua mãe por cima. Falta um pedaço na moldura de talha, mas é nele que os rostos antigos se observam de tempos a tempos, surpreendidos por haverem morrido. Debruça-te da muralha para o rio e não verás ninguém: o comboio levou-te. Se calhar um telefone, se calhar um colega a interessar-se por ti, se calhar o teu filho mais velho lá em baixo, na esquina, porque pode ser que um táxi, pode ser que tu, um serão no escritório, um amigo da tropa, a consulta no médico que acabou mais tarde, a tua mulher entre o patamar e a janela, qualquer coisa como uma lágrima, um soluço de choro: não oiças. Ouve a água do Tejo sem ver a água do Tejo na sua moldura de talha a que falta um pedaço, o que te dá ideia de um cesto ou uma bota à deriva, um reflexo qualquer mas de quem? Diz
– Vlkab
diz
– Tjmp
é a única língua que verdadeiramente conheces. Lembras-te do teu pai no quintal? Aquele defeito no polegar, a cicatriz no pulso? De fumares às escondidas atrás da capoeira? De roubares ovos para os venderes na loja? O gato de faiança? O gato verdadeiro, só pupilas e cauda? O teu passado foi-se embora, não te recordas de nada, nada disso existiu e é noite. Diz
– Boa-noite a todos
diz
– Fcdnqr
o Tejo entende. E depois, a pouco e pouco, desce para ele. Repara: a arca de cânfora, o espelho por cima. Na arca os lençóis do enxoval, no espelho os rostos antigos que te aguardam. És um deles, foste sempre um deles. Quando a tua mulher ou os teus filhos passarem na entrada encontrar-te-ão ali, entre um cesto e uma bota à deriva, e saberão que voltaste. E por saberem que voltaste a tua boca, sob a água, principia a sorrir.»

António Lobo Antunes

O animal preferido do meu pai é o polvo. Desde pequenino ouço-o dizê-lo em resposta à minha predilecção pela chita
(a chita que convenhamos é o animal mais rápido do mundo se não contarmos com alguns passarocos de asas grandes que só são mais rápidos do que a chita porque o céu lá em cima oferece menos atrito do que a selva cá em baixo e a chita é certamente mais rápida do que o polvo que ainda por cima tem oito patas e a chita só tem quatro que é metade das patas que o polvo tem que nem sequer é mais rápido do que a sardinha que é pequenina e não tem patas)
mas pelo lamber de lábios guloso e carantonha demente que o meu pai fazia quando o dizia nunca cheguei a perceber se o que ele apreciava no polvo era a sua inteligência ou o seu sabor. O polvo é um animal muito inteligente: consegue desenroscar a tampa de um frasco com os seus oito tentáculos, coisa que nós humanos só fazemos usando dez dedos
(muitos de nós com a ajuda de mangas ou molares ou martelos)
mas a chita que é o animal mais rápido do mundo, a chita que é mais rápida do que o polvo e alguns pássaros, nunca precisou de abrir um frasco.

Um dia uma chita encontrou um polvo no charco, disse-lhe
– Olá
e o polvo, bailando sobre tentáculos, respondeu
– Olá
com medo, procurando não tirar os seus olhos dos olhos da chita.
– Tu o que és? – perguntou-lhe.
– Eu sou uma chita, o animal mais rápido do mundo.
O polvo observou-a com admiração, demorando o olhar curioso nas nódoas negras que lhe manchavam pelo corpo o pêlo dourado.
– Magoaste-te?
– Não – respondeu a chita com orgulho. – Sou rápida demais para me magoar – e girava elegante no seu eixo, o queixo e os bigodes erguidos, a cauda e as patas alçadas. O polvo
– És muito bonita, chita
num murmúrio audível que fez a chita pousar uma pata na berma do charco. O polvo subitamente lá ao fundo, encolhido, longe da superfície e do sol
– Sou um polvo, acho que to devia dizer.
– Mas porque foges? – admirava-se a chita. – Vem cá, ensina-me a dançar como tu.
O polvo estranhamente lá ao fundo, encolhido, longe da superfície e do sol
– Sou um polvo e tu uma chita, acho que o devias saber.
À beira do charco a sede sedutora das gazelas, mas a chita acabara de conhecer um polvo.
– Se tu és um polvo e eu uma chita, porque damos as mãos?
(três mãos de garras cravadas em terra firme, sete mãos de ventosas coladas no fundo do charco: duas mãos dadas na lama)
O verão secaria o charco do polvo,
– Solta-me os tentáculos e ensina-me a respirar fora de água.
a monção inundaria a selva da chita.
– Esconde-me as garras e ensina-me a dançar.

O animal preferido do meu pai não é o polvo: o animal preferido do meu pai é a sardinha, que é pequenina e não tem patas
(lamber de lábios guloso e carantonha demente, pai)
e é muito mais saborosa do que a chita.

Silêncio. Depois do silêncio que a ponta da caneta que vincava o papel lhe consentiu o quarto escuro da luz que cortava quente da janela e aquecia a cómoda o cheiro dos cortinados antigos o toque áspero da escrivaninha da idade do avô esmagou a ponta do cigarro contra o cinzeiro de vidro grosso e encostou-se sem costas no ranger da cadeira. Cabelo sujo desengomado em flocos espigados na nuca sobre o colarinho da camisa engoliu o fumo de olhos fechados amachucou com uma mão em cima da mesa a folha amarelecida, a folha amarelecida amachucada, a folha amachucada dentro da sua mão dentro de si nas veias da mão os dedos esguios que a seguravam e a apertavam a tremer de
– está frio aqui
mas o sol que caminhava descalço na luz que cortava quente da janela e aquecia a cómoda aproximou-se da mão e ali ficou, o sol ali parou, o sol parou, a mão no sol a caminhar descalço. O sujeito da cartola, a pontinha dos dedinhos papudos enfiada na algibeira, o bigode e a bengala e a cartola, o sujeito da cartola
– estamos prontos, meu caro?
sorria infame entrando quarto adentro em ensaiada cerimónia encostava a porta pesada atrás de si os quadros que olhava sem ver através da curiosidade inócua de um monóculo. Sorria com a curiosidade infeliz do seu monóculo. Silêncio. Depois do silêncio que a dobradiça entorpecida da porta que os fechava no quarto lhe consentiu esmagou a ponta da bengala no tapete de pêlo grosso e apoiou-se na perna dobrada. E o sol que caminhara descalço na luz que cortava quente da janela e aquecera a cómoda aquecia a mão que segurava o papel, aquecia a mão que apertava o papel, o papel amarelecido e amachucado quente fora da mão que o soltava desapertado na mesa no sol na luz da janela. O sujeito da cartola
– pois um dia dou um jeito a estes cortinados
aproximou-se deles e deslizou a pontinha dos dedinhos papudos no canto da escrivaninha, o quarto agora mais escuro da luz que cortava quente da janela e lhe aquecia a cara sem aquecer a cómoda, o ranger do chão de madeira para lá do tapete. Lá em baixo os sapatinhos de pano, a camisola e os sapatinhos de pano, a mochila sobre os ombros da camisola a abrir a porta do prédio a oeste com sapatinhos de pano. Encheu de tabaco o cachimbo
– que será de si quando o café fechar?
como quem sabe a resposta à pergunta encheu de tabaco o cachimbo
– que será de mim quando o cigarro se apagar?
encheu de tabaco o cachimbo e viu-o desencostar-se da cadeira. Ele inspirou os olhos cerrados o quarto escuro na luz que cortava quente da janela sobre os contornos do papel amachucado, as mãos abertas sob os contornos do papel amachucado, o papel amarelecido e amachucado, as mãos abertas. Silêncio. Depois do silêncio que o tagarelar obsceno das pombas no parapeito da janela lhe consentiu enfiou o papel amarelecido e amachucado no bolso de dentro do casaco do sujeito da cartola
“espalhem a notícia”
e descansou um sorriso nervoso no ombro mole do sujeito da cartola
– voltaremos a ver-nos?
com medo de o voltar a ver sem ter nunca percebido o porquê de uma cartola.

As pombas, sujas e obesas e dormentes, tudo pareciam comandar dos parapeitos e das ombreiras.
O sujeito da cartola, confirmando a hora do seu relógio de bolso com o esconderijo do sol atrás da torre da igreja, dobrou o seu jornal num ritual (com as gravuras para fora), prendeu-o debaixo do braço e despediu-se em euforia das pessoas do café. Ninguém o parecia ouvir.

– Se ainda quiser saber quem eu sou, meu rapaz
mas o seu rapaz abrira os cortinados. Demasiado habituado à escuridão do quarto, deixou de ver os contornos das coisas que o rodeavam. Já não conseguia ver o sujeito da cartola: o sujeito da cartola já não o podia ver. O sol lá em baixo a caminhar descalço. O sujeito da cartola morto e o sol lá em baixo a caminhar descalço.

Dias violeta

Março 15, 2008

Abriu a porta, pousou as chaves na mesa do hall de entrada e tombou a mochila cansada dos ombros para o chão.
– Cheguei – segredou à casa vazia.
Despiu a camisola, esfregou o rosto corado, soltou o cabelo de olhos fechados e desembaraçou-se dos sapatinhos de pano. De pés descalços, caminhou na sala escura até sentir o sofá nas suas pernas. Deixou-se cair.

Março de 1986; ligou a televisão. No ecrã, a senhora de lilás apresentava o telejornal:
“A cidade está deserta”, anunciava. “E alguém escreveu o teu nome em toda a parte.”
A reportagem mostrava imagens de letras pintadas a tinta violeta – nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas. A voz demasiado maquilhada da senhora de lilás continuava:
“Em todo o lado, essa palavra repetida ao expoente da loucura. Ora amarga,”
No sofá, ela murmurava em uníssono a notícia que parecia saber de cor
“ora doce,”
e a sua voz serena sobrepunha-se à da senhora de lilás.
“para nos lembrar que o amor é uma doença quando nele julgamos ver a nossa cura.”
Sentado ao seu lado, afundado nas almofadas, o sujeito da cartola acendia um fósforo e levava-o à boca do cachimbo, alumiando a cada fôlego a sua expressão gasta e pardacenta.
– Prometeu que ninguém ia acordar – lembrou-lhe, expulsando o fumo pelo nariz.
Ela não reagia às suas palavras; admirava-se o sujeito da cartola.
– É fácil amar e ser amado – ajuizava, provocador, trauteando uma melodia indefinida. – É só ter jeito para falar o que é melhor de ouvir. Mas o calor, que é tudo o que é bom, só acontece quando nada é claro.
– Detesto ter de concordar com essa frase.
O sujeito da cartola sorriu entre dentes, saciado. Enfiou a mão no bolso de dentro do casaco e vasculhou-o – tirou de lá um papel amarelecido e amachucado; com os dedos enrugados a tremer, estendeu-o na sua direcção, sem a olhar. Depois aninhou as mãos no colo e olhou em frente.
– Quer que abra a janela?
– Não! – respondeu, assustada. – Ainda não.
Lia agora o que o papel tinha escrito. O sujeito da cartola reparou que os seus dedos estavam manchados de violeta. Ajustou o monóculo ao nariz quebrado, cofiou nervosamente o bigode e elevou os olhos alarmados para a tremura aquilina do seu perfil. Com o cachimbo quase apagado dependurado no canto da boca, arrancou-lhe o papel amachucado da mão, recolocou-o no bolso de dentro do casaco e abismou-se um pouco mais nas almofadas. Arfava:
– Está satisfeita?
Ela mordeu os lábios e desligou a televisão. Demasiado habituada à sua luz, deixou de ver os contornos das coisas que a rodeavam. Já não conseguia ver o sujeito da cartola: o sujeito da cartola já não a podia ver.
– Estou bem.

No pavilhão de desportos, o novo professor de ginástica do colégio soprava com esforço o apito prateado pendurado ao pescoço, desencostando o ombro mole e preguiçoso da tabela de basquete e arrastando-se para o centro da discussão.
– Piolhos!
Os rapazes bulhavam e as suas vozes exaltadas de puberdade ecoavam nas bancadas desertas.
– Foi falta do gordo!
– Eu não sou gordo – suspirava o gordo, arfando de cabeça dependurada, todo o seu peso apoiado nos joelhos, pingando da testa vermelha. – Eu não sou gordo.
– O professor Zé António punha sempre o gordo à baliza! – continuava a berrar o miúdo das sardas, todo o seu cabelo louro colado ao pescoço e às orelhas, ofegante. O gordo continuava a sussurrar de cabeça escondida entre os braços:
– Eu não sou gordo.
– O professor Zé António não deixava o gordo…
– Eu não sou o professor Zé António, piolho!
– Eu não sou gordo – avisava o gordo, a cabeça já semi-erguida.
– Cala-te, pote de banha.
Os olhos papudos do pote de banha humedeciam-se de fúria; a sua mão, apoiada na coxa, cerrava-se agora num punho.
– Eu… – a sua voz tremia de adrenalina, – não sou… – vibrando no repentino silêncio ensurdecedor do pavilhão – gordo!
O miúdo louro arregalou os olhos assustados; o professor de ginástica descruzou por instinto os braços.
– Piolhos!

O tempo parou com o murro redondo e rosado do gordo a centímetros da bochecha sardenta e suada do miúdo louro; estático, o professor de ginástica puxava a camisola do fato de treino do gordo, o apito caído da boca, suspenso no ar; o miúdo louro, entre estátuas como ele, cristalizara numa careta de medo.
Fora do campo, no centro da bancada vazia, o sujeito da cartola cruzava a perna pequenina e barriguda, exibindo um par de meias de caxemira rasgada e amarelecida escorregando canelas abaixo.
Só o rapaz moreno e míope aproveitara a sua habitual abstracção pateta para fugir dos truques do tempo (o tempo habituara-se com o tempo a pregar-lhe partidas). Passeava-se pelo campo, livre e leve finalmente, tentando não tocar nos corpos rígidos e frágeis à sua volta. O sujeito da cartola observava-o por puro ócio, bebericando uma chávena de chá (do campo, a miopia não detectava as migalhas de biscoito de manteiga cuspidas para o colete) cujo pires tilintava na corrente do monóculo. Intercalando goles a escaldar com gargalhadas jocosas,
– Aha! Meu caro, pois já se esqueceu?
pousava a chávena no colo e abanava a cabeça com forçada desilusão. Ele, sozinho agora no campo, sentia um arrepio nas costas transpiradas a cada palavra sua.
– Talvez o cavalheiro deva olhar para trás.
– Para trás?
– Para trás, cavalheiro!
Atrás, ouviu-se uma voz húmida e rouca, de menina crescida com medo de crescer:
– Eu pedi-te para não me deixares sozinha com os leões, palerma.
O palerma voltou-se e viu-a – ela era bonita. Reconheceu-a (quantos anos passaram?, sei quem tu és), mas a menina crescida com medo de crescer não era já uma menina. Era música em si mesmo e era aura à sua volta; aos poucochinhos, a música aprendia a acender-se em acordes tristes e a devolver às estátuas a sua luz.
Levantaram voo.

– Eu pedi-te para não me deixares sozinha com os leões – repetia, levitando, descolando os pés descalços do chão.
– Desculpa, esqueci-me.
– Odeio a tua estúpida memória,
A memória não era estúpida, era memória de peixe; esquecer-se de tudo era uma forma de ser mais leve, de nada saber
– odeio a forma como observas tudo à tua volta, como analisas as coisas sem concluíres uma merda que seja,
para nada crescer. As conclusões assustavam-no porque lhe davam os primeiros cabelos brancos; do que ele sentia a falta era de aprender a conjugar verbos
– odeio que resolvas a vida dos outros sem que te resolvas a ti
e a dar beijinhos com o jogo do bate-pé.
– e odeio que te escondas nas expressões imbecis que fazes com as sobrancelhas – atirou por fim. – Pára de te esconder nas expressões imbecis que fazes com as sobrancelhas!

O sujeito da cartola explodira de riso. Apoiado na bengala e na barriga, uivava lá em baixo gargalhadas de catarro. Depois calou-se, enxugou as pestanas e o bigode e aclarou a voz, projectando-a.
– “Os adolescentes lambiam-se de libido as línguas e os lábios num longo linguado”. Aha! Lembra-se?
– Lógico.
– Logo, leia nos lábios! – e levantou-se; lentamente, lambendo os dentes e as gengivas, abria e fechava a boca; do fundo de si ouvia-se a voz líquida e doce da menina crescida com medo de crescer.
– Odeio o teu nariz ridículo
Ridículo?
– e o teu cheiro a seguir às aulas de ginástica.
Cheirou-se nos ombros e nos braços.
– E odeio-te a ti.
Sentiu outros braços abraçarem-no por trás e uma língua a lamber-lhe o pescoço e a nuca.

Acordou na sala de aula, sobressaltado. Passou a mão pelo cabelo.
– Que mês é hoje?
Na carteira à sua esquerda, a menina dos totós chupava o aparelho com a língua, atirando-lhe os seus olhos amplificados pelas lentes dos óculos. Ele sacudiu a cabeça e esquadrinhou as páginas do seu caderno diário. Fevereiro de 1986?
– Obrigada – disse, continuando a pressionar o lápis de cera sobre o papel. Depois pareceu lembrar-se de algo (algo mais importante do que desenhos a lápis de cera), olhou desassossegada pela janela e pousou o lápis na mesa. – O café não vai fechar, pois não?
O sujeito da cartola, desproporcional, sentado numa carteira da fila da frente, de boca escancarada, observava-os com interesse infantil.
– Ouve…
Ela silenciou-o com o indicador nos seus lábios.
– Sabias que ouvir em italiano é sentir?

Lucky Luke deprimido

Janeiro 14, 2008

– Aha! Ei-la! – gritou o sujeito da cartola, por detrás da curva do seu bigode, fumando o seu sôfrego cachimbo, esbofeteando com satisfação uma página do seu jornal. – Uma assoalhada, uma salamandra, uma latrina… – enunciava para quem o ouvisse. – Todos os confortos! Uma casinha fora da cidade, ein? Que me diz você? – continuou, interpelando o empregado no seu primeiro dia de trabalho. – Assim um ninho de amor sobre a praia? Aha! Nas dunas!
O empregado suava, sorria e tremia, elevando num equilíbrio instável a bandeja prateada sobre as cabeças dos clientes. Duas mesas para lá do sujeito da cartola, ele e ela, junto à janela, roçavam sem perceberem as calças de ganga um no outro.
– Sabes, és a minha primeira amiga. Na verdade, a minha única amiga.
– Então e as outras?
Lembrou-se delas num arrepio profundo e sorriu, suspirando.
– As outras… Queria ir para a cama com elas. Não se quer ir para a cama com uma amiga. É como querer ir para a cama com um amigo.
– Não queres ir para a cama com os teus amigos?
Engasgou-se no silêncio abrupto que aquela ideia provocara e respondeu-lhe com um arregalar de olhos, procurando expulsar da cabeça a imagem dos seus amigos em roupa íntima.
– Porque mo perguntas?
– Queres ir para a cama comigo?

Os ponteiros do relógio de bolso pendurado na lapela do fato de flanela do sujeito da cartola pararam – com eles, as pombas na rua, incomodadas por uma criança de fraldas lambuzada em gelado de chocolate, flutuaram imóveis, de asas abertas, sobre os chapéus de um casal de adolescentes, estáticos como estátuas; na esplanada, a bica entornada pelo empregado sobre o colo da senhora de lilás cristalizou no ar antes de lhe tocar o vestido.
Não, não quero ir para a cama contigo. Não posso sequer achar que quero ir para a cama contigo porque, assim, mais tarde ou mais cedo, vou querer ir para a cama contigo. E eu não quero ir para a cama contigo.

O sujeito de cartola levantara-se do seu lugar; serpenteando pelas pessoas paradas, debruçava-se agora sobre ele, arremessando a bengala para trás das costas e ajeitando o monóculo ao sobrolho. Observava-lhe as expressões e os sinais da cara com interesse científico.
– Meu rapaz, quer ir para a cama com ela?
Sentindo-lhe o vício no hálito a croquetes, a brandy e a camarão,
– Na verdade, é essa a pergunta que o cavalheiro se deve fazer…
procurou afastar-se mas só conseguia fechar os olhos.
Não posso querer ir para a cama contigo. Não posso ir para a cama contigo. Não devo, não devia ir para a cama contigo.
O sujeito da cartola insistia. Expulsou o fumo do cachimbo pelo nariz e atirou, rouco e impaciente:
– Ouça, quer ou não ir para a…?
– Ouve, queres ir para a…?

– Então?
– Não.
O sujeito da cartola esfumara-se dali para fora; espreitava-o agora da esplanada, acenando com a bengala escancarada de gargalhadas.
– Não o quê? – perguntou, serena.
– Não quero ir para a cama contigo.
Ela mexia ainda o café, olhando em frente pela janela, através das coisas. Depois cerrou as pestanas (ele reparou pela primeira vez em vinte e um anos nos desenhos que as sardas das suas pálpebras faziam), parou de rodar a colher, levou-a à boca e lambeu-a lentamente (ele sentiu que as suas pernas se tocavam), pousando-a enfim no pires, com interesse religioso.
– E eu não te perguntei se querias ir para a cama comigo.

O empregado, encharcado de si, rasgava o vestido da senhora de lilás de onde tentava tirar a nódoa; o avô perseguia o neto lambuzado e fugidio, um a minguar, o outro a crescer, ambos de fraldas; os adolescentes lambiam-se de libido as línguas e os lábios num longo linguado; lamentava-se a senhora de lilás. As pombas, sujas e obesas e dormentes, tudo pareciam comandar dos parapeitos e das ombreiras.
O sujeito da cartola, confirmando a hora do seu relógio de bolso com o esconderijo do sol atrás da torre da igreja, dobrou o seu jornal num ritual (com as gravuras para fora), prendeu-o debaixo do braço e despediu-se em euforia das pessoas do café. Ninguém o parecia ouvir.
– Aha! Pois um dia vou morar para a beira-mar! – repetia, de braço erguido e dedo apontado ao céu laranja. – Um dia vou morar para a beira-mar! Aha!
Desceu a trote a calçada sem fim, assobiando um tango antigo, alçando a cartola sorridente aos mendigos e aos doentes. Os mendigos e os doentes, tremendo de frio e de dor, choraram ao senti-lo passar.

Janeiro de 1986. O café ia fechar daí a uns meses, todos na cidade o sabiam. Ninguém na cidade falava disso. Da janela fechada do seu quarto ele observava-a todos os dias, com interesse apaixonado, a fumar um cigarro à varanda. Todos os dias, invariavelmente, a caneca de café arrefecia sem que ele a bebesse.
– Enquanto o café não fechar… – murmurava ao deitar-se, despindo-se e entrando na cama. As outras puxavam-no pelos suspensórios (as outras iam para a cama com ele).
Ele nunca a vira apagar o cigarro. Enquanto o café não fechasse, não o faria.

Margarida não sabe

Novembro 18, 2007

 

– O ar está transparente, hoje – observou, com desinteresse apaixonado, indulgentemente debruçada no poste enferrujado que, sem ela perceber, a salvava do vendaval; o frio seco do Outono escondia-se pela primeira vez daquele ano nos cachecóis das pessoas, ferindo-lhes os narizes e as orelhas, mas o queixo de Margarida continuava sorridente, apoiado nos seus braços. – Está transparente, não está?

João concordou instintivamente, dividindo a sua preocupação pelas pernas demasiado trémulas e nuas de Margarida e o precipício demasiado próximo da realidade, sem encontrar a transparência que ela via no ar daquela manhã. João não sabia porque tinha ainda tanto medo de discordar de Margarida, mas sempre acreditara honestamente que um não seu a faria saltar o muro para caçar um pedacinho de ar transparente e mostrá-lo a ele, abrindo com ofegante orgulho a palma da mão.

– Olha!, o ar é transparente!

– Margarida, está bem, mas esconde-o – pediu. – E veste a camisola.

Margarida não sabia como tinha conhecido João ou há já quantos anos se conheciam, mas isso não importava. Não conhecia mais ninguém além de João, mas isso também não importava. Ele era forte e bom e ajudara-a a crescer. Era sempre a sua voz cansada que a acordava a meio de um pesadelo; era sempre o seu peito duro que lhe ralhava o feitio; eram sempre os seus olhos fundos que se riam das expressões que fazia quando comia e do nariz que mexia quando se zangava; eram sempre as suas mãos atentas que na rua a impediam de tropeçar.

– Os melros comeram os figos, olha! – disse, satisfeita. – Quer dizer que estão maduros.

– Os pássaros gostam da fruta de qualquer maneira, Margarida, esteja ela verde ou madura.

– Porque é que tens de dizer sempre o contrário do que eu digo? – atirou, chateada, apressando o passo para nenhures. João não concordava com Margarida; prendeu na garganta as palavras que a fariam chorar,

 

– Porque tenho medo de gostar de ti.

 

enterrou as mãos nos bolsos do casaco e continuou a arrastar os sapatos ruidosos na gravilha.

João sabia que não podia ter Margarida para sempre. Encontrara nela a inocência e a curiosidade que a haveriam de levar para longe dali, por muitos anos, por muitos homens – mais interessantes que ele, mais inteligentes e tolerantes com certeza –, e percebera desde então que pouco ou nada havia que pudesse fazer para o evitar. Mas isso, por agora, pouco importava. Naquela tarde fria e soalheira de Outono, no jardim ali plantado para quem o soubesse saborear, Margarida crescia a olhos vistos, era já uma mulher.

À noite, cansado de ser gente crescida a vida inteira, com a cabeça transpirada a latejar de medo e de esperança, João sonhou que era uma criança outra vez e que, às escondidas, Margarida lhe dava a mão pequenina e suja de terra.

 

Pragersko

Outubro 21, 2007

– Devíamos ter desligado os telefones,
tê-los atirado para dentro de um comboio em andamento, estúpidos e instintivos, para vê-lo desaparecer na curva da linha – e com ele toda e qualquer coisa que nos ligava ao que quer que tivéssemos sido antes –, mas não o fizemos.
– Eu ficava aqui a morar!
O que ele nos tentava dizer, afundado preguiçosamente na cadeira à nossa frente, era que havia já pouco ou nada que o ligava de saudades ao lugar de onde partira, ninguém de quem fosse sentir a falta quando meses passassem a cultivar batatas, com uma mulher loira de olhos azuis e um rafeiro como companhia.
– Já vos contei a história dos seis amigos? – perguntou, divertido, acendendo um cigarro no canto da boca.
Os derradeiros goles de cerveja e o jogo de xadrez interrompido deram-lhe permissão para a contar.

Aparentemente, estes eram seis amigos que tinham decidido abandonar tudo o que conheciam – todos os amores e todas as certezas – por pedaços de felicidade, pura e instantânea; juntos, viveriam sozinhos, no meio do nada, onde ninguém os pudesse encontrar, por muito que o vento sussurrasse, gritasse ou chorasse nomes de raparigas que tivessem prometido esquecer.

– O vento não se lembra de todos os nomes que já soprou.

Semanas, meses, anos passados de cervejas (e de outros meios de distorção da realidade), um dos seis amigos confessara a sua vontade – “necessidade”, dizia ele – de se ir embora. Partira no primeiro comboio que chegara à estação.
O mesmo sentimento que demovera o primeiro dos amigos parecera abater-se sobre os restantes. Um por um, foram desistindo da vida que todos tinham ajudado a criar; a saudade, palavra que apenas eles conheciam, raptara-os a todos para o lugar onde a tinham aprendido.
A todos, menos a um. O último dos amigos, genuína e infinitamente feliz, com uma mulher ruiva de olhos verdes e um casal de ovelhas como companhia, resistira e fora deixando-se ficar, despedindo-se de todos, um por um, com dois olhos inchados e uma caneca de cerveja cheia até ao topo.
Semanas, meses, anos tinham passado e o casal de ovelhas era já outro; a mulher ruiva de olhos verdes já arrotava à sua frente. Num dia exageradamente quente e húmido, na estação, uma porta verde enferrujada de um comboio abriu-se à sua frente, sonora e provocadora; ele subiu as escadas toscas e entrou, não atrás da saudade, mas a fugir do que não sentia a falta.
Semanas, meses, anos mais tarde, encontrara no lugar de onde partira pela primeira vez a vontade de, com os amigos de quem fugira, partir outra vez.

A moral da sua fábula beliscou-nos os corações demasiado ao de leve para se deixar conhecer. Ela existia, sentimo-lo, e isso pareceu-nos suficiente. Afundámo-nos um pouco mais na cadeira.
– Devíamos ter desligado os telefones.